Me permito mudar de opinião. Hoje me dói menos certas incertezas e acho que é porque amadureci um bocado. Publiquei vários textos, em vários lugares, que apaguei por vários motivos. O texto abaixo foi deletado por três razões específicas – primeiro, porque sendo um pouco polêmico, gerou comentários que pela falta de tempo, saco ou disciplina eu acabava demorando um bocado a responder, comprometendo o que eu achava ser o objetivo democrático de se ter um blog.
Segundo, porque uma amiga desistiu de viajar, de conhecer a Austrália e obviamente se conhecer melhor, e eu fiquei achando que tive alguma influência no processo (ainda não sei se de forma mais positiva ou negativa). Ela casou antes de ir ver o mundo e não que o compromisso tenha que impedir completamente uma pessoa de viver grandes e deliciosas aventuras, mas sei lá, fiquei achando que a interpretação foi errônea e pode ter privado uma pessoa de fazer uma grande viagem.
Terceiro, porque as pessoas mudam e hoje eu acho que todo mundo deveria ir morar fora por um período, ir para qualquer lugar e ficar o tempo necessário para se tornarem melhores. Melhores pessoas, profissionais, filhos, amigos, viajantes, turistas, colegas de quarto. Acho que morar fora proporciona momentos únicos e situações tão inusitadas que te fazem crescer bastante (se você quiser). Seria arrogância minha achar que somente a minha experiência é válida, ou que não seguir um caminho que eu considero de sucesso invalide a viagem de outras pessoas.
A experiência de morar fora é muito pessoal e convenhamos que para alguns, aprender a fritar um ovo e a fazer a própria cama já é um resultado positivo – conheço gente que morou 1 ano fora, comendo sardinha com maionese todos os dias por pura preguiça de aprender a cozinhar. Triste! Além disso, eu mesma ainda estou em um processo lento e contínuo de aprendizado, que inclui aprender a ser brasileira no exterior.
Eu deletei o texto, como fiz com vários outros – perdi os comentários, positivos e negativos, mas hoje estou repostando-o por um motivo único. Gosto dele. Além disso, convenhamos que não é culpa minha se alguém quis usar a mim ou qualquer outra pessoa como bode espiatório para justificar a falta de culhões para deixar a própria zona de conforto. Interprete, entenda como quiser (confesso no entanto que fiz modificações, mas mais para alinhá-lo com o que penso hoje)
Ainda concordo com alguns pontos, não com todos, o que mostra que a minha viagem e meu auto-conhecimento ainda continuam e que mereço ter meu espaço para registrar o meu próprio amadurecimento. Afinal, este é meu canto de experimentações. Deletar e repostar textos faz parte do processo.
Texto publicado em Junho de 2010
Porquê muitos brasileiros deveriam ficar no Brasil
Antes de pré-julgar o post por conta do título acima, respire fundo e se comprometa a ler até o final …ótimo, melhor assim. Muita gente me pergunta como é morar na Austrália e para a grande maioria das pessoas que está pensando em vir (só tenho propriedade para falar daqui, porque é onde moro) tenho um conselho a dar: Não venha! Isso mesmo! Brasileiros, por favor, párem de vir para a Austrália! Fiquem aí no Brasil!
Bom, para quem pensou que eu não gosto do Brasil ou de brasileiros, vamos lá, continue lendo, porque é exatamente o contrário. As pessoas têm motivações variadas e se organizam diferentemente com relação aos planos pessoais e profissionais. Posso dizer com firmeza que muitos vêm morar aqui, ou vão para outros lugares do mundo de forma desorganizada e a resultante é um misto de frustração, perda do investimento e da oportunidade e a grande maioria sequer percebe que poderia ter tido uma experiência inúmeras vezes mais enriquecedora. É para estas pessoas que este post serve (ou para você que conhece alguém assim que está indo morar fora).
Eu não conheço todos os brasileiros que moram na Austrália, obviamente. Muitos têm histórias e trajetórias mais complexas do que um post de blog me permitiria contemplar sem tornar o texto interminável, mas uma coisa pude notar enquanto morei em Brisbane e ainda vejo hoje que moro em Sydney: 99% dos brasileiros latinos chegam aqui com uma visível baixa auto-estima com relação aos profissionais qualificados de outras nações. É isso! E antes de vestir a camisa verde-amarela e gritar Brasil!, deixe eu me explicar melhor, continue lendo…
Uma parte de cada um de nós, morre de orgulho de sermos brasileiros. Abrimos um sorriso largo quando alguém nos pergunta de onde somos e respondemos prontamente, com os olhos brilhando e já esperando uma recepção positiva : ” Brazil! I am brazilian”! Morremos de orgulho do nosso futebol e do nosso samba; da beleza do Rio de Janeiro e do carnaval, de São Paulo e sua economia vibrante, do carisma que emanamos e de sermos um povo tão receptivo e acolhedor. De termos sangue latino e podermos dançar com desenvoltura e graça enquanto os gringos se atrapalham tentando imitar nossos passos. Da bossa nova, da MPB, da Amazônia. De muitos de nossos escritores. De termos uma terra abençoada e bonita por natureza. De sermos um povo alegre, que ri da própria desgraça.
Temos uma infinidade de coisas das quais nos orgulhamos (geralmente os grandes clichês mencionados acima) mas a verdade é que, por descuido ou hábito, acabamos nos prendendo patologicamente às piores características do nosso país. Cada brasileiro, independetemente do estado do qual veio, sabe identificar uma ou outra qualidade e enumerar um milhão de defeitos.
Nós temos orgulho sim, de algumas das características acima dentre outras, mas não nos julgamos capazes (ao menos a princípio) de competir em pé de igualdade com profissionais provenientes de países desenvolvidos, principalmente se competindo com profissionais que tem inglês como primeira língua. Generalizações à parte e considere que este texto o reflexo das impressões que tive até agora, esta é a sensação da maioria dos profissionais que chegam aqui e estão morando fora do Brasil pela primeira vez. Engenheiros, Médicos, Publicitários, Jornalistas, Advogados, Profissionais de Marketing, Administradores de Empresa. Não importa a formação, a experiência antrerior. Chegam todos aqui dispostos a trabalhar de cleaner (faxineiro, geralmente limpando banheiros de escritórios), motoristas, entregadores de pizza, pedreiros, vendedores de sorvete. E é assim que é para a grande maioria, principalmente para aqueles que chegam sem falar nada de inglês. Profissionais com boa formação acadêmica, capacitados para atuar em suas respectivas áreas, lavando pratos ou privadas. Se sujeitando a posições infinitamente inferiores às que teriam no Brasil, evoluindo pouco profissionalmente e em muitos casos minimamente no aprendizado da língua.
E por isso que repito, mais uma vez: Brasileiros, párem de vir para cá!! A menos que você compreenda verdadeiramente o movito pelo qual você quer vir, fique no Brasil, estude a língua aí, adquira a experiência necessária para atuar na sua área e se aplique do Brasil para uma posição, com o visto já garantido. Conversando com um casal de amigos francês, um deles pontuou um fato irrevogável: ” com a formação que muitos brasileiros têm, o melhor lugar para se estar é lá, no Brasil. Ou em algum outro país que pague um salário tão alto e ofereça uma qualidade de vida tão acima que compense deixar para trás família e amigos”. Fato!
Eu disse para meu amigo francês que para ele que mora em um país europeu as coisas são mais fáceis e a vida menos difícil, que é simples, para ele, falar em orgulho, em auto-promoção, enquanto nós, bom, se voltarmos, estamos mal pagos e em piores condições que aqui.
Bom, isso não é de todo verdade.
Era também em mim, este bichinho chato da auto-depreciação que todo brasileiro tem dentro de si que me fez formular o pensamento acima, como se nós, por termos os problemas que temos em nosso país, não fóssemos dignos de atuar em pé de igualdade com outros profissionais e por isso, pelo esforço para aprender a língua, deveríamos aceitar prontamente e felizes, posições abaixo das que podemos exercer.
E este meu amigo francês completou, enfático: “Não fico, por nada, em um país que não aprecia meu conhecimento. Se eles não me oferecerem uma colocação apropriada e salário justo, bom, eles que aprendam francês e viagem até a França para adquirir o conhecimento que vim até aqui para oferecer!” Fiquei achando o máximo o orgulho (que muita gente confunde com arrogância) deste meu amigo francês, e pensei: é isso! Brasileiro têm que parar de se diminuir, de achar que outros países são infinitamente melhores. Isso não é verdade!
Existem uma infinidade de esferas nas quais os australianos estão à frente (como outras em que o Brasil é mais evoluído) e não vou entrar neste mérito agora. Mas o entendimento de que você não precisa do aval de outros povos para ser um bom profissional é para mim o ponto chave. Sabe por que ainda vale a pena morar fora lavando privada? Porque ainda olhamos o currículo de uma pessoa que morou fora com melhores olhos do que de alguém que nunca esteve em outro país. E em alguns casos, eu entendo o porquê. Morar fora PODE, repito, pode ser MUITO enriquecedor. Mas estar somente, morar apenas, não torna um profissional melhor do que outro. A diferença está no que você faz da sua passagem fora.
Bom, esta discussão dá pano para manga e uma infinidade de angulações diferentes, mas vou me ater, neste post, ao motivo inicial. Deixo uma coisa clara. Ninguem aprende inglês do dia para a noite e morar em um país de língua inglesa não o tornará fluente na mesma pelo simples fato de você estar aqui. É preciso muita dedicação, muito estudo e não conheço ninguém que aprendeu a língua do zero até o ponto de fluência para competir por um vaga no mercado, na área de formação, em menos de 2 anos. Aí então, reside a pergunta.O que é que você está vindo fazer aqui, brasileiro?! Pense, reflita. Entenda que porque você é de um país cheio de desigualdades, você pode ter esta oportunidade e outros não. Venha para cá ou vá para qualquer lugar para absorver conhecimento e trazer o conhecimento que você tem. Não perca 1 ou dois anos vivendo uma vida fantasiosa, trabalhando em um emprego que pode até ser temporário, mas que está de fato lhe acrescentando muito pouco profissionalmente, só para dizer que morou na Austrália. Muita gente vive aqui sem falar inglês, convivendo apenas com outros conterrâneos (não somente latinos, mas pessoas do mundo todo cometem esse erro) o que torna todo o processo de imigração (ou intercâmbio) ainda mais sem sentido.
Vale a pena vir sim e investir na viagem se você entende o que quer da sua experiência, como aprimorar o conhecimento de inglês que já tem aliado a uma experiência profissional por exemplo. Ou, se a sua vida no Brasil é de fato muito sofrida e você sonha em tentar algo melhor. Entre servir mesas no Brasil ou aqui, bom, venha para cá. Você vai ser mais bem pago, além de ter mais qualidade de vida e segurança.
Morar fora é fantástico e na Austrália, é possível crescer bastante profisisonalmente e ter sim mais qualidade de vida que no Brasil. Mas isso se você se planejar para entrar no mercado de trabalho para competir com profissionais do mundo todo. Não tenha medo de erguer a cabeça e vir para mostrar o que o profissional brasileiro tem para oferecer de positivo, de inovador, seja qual for sua área.
Investir em cursos de inglês caríssimos e renovações de visto, gastar com aluguéis inacreditavelmente caros (e subindo – o aluguel de um quarto em Sydney pode chegar a 1000 reais por mês, para dividir com outra pessoa!), passagem (só a passagem ida e volta é cercade 4 mil reais), ficar longe da família e dos amigos, tudo isso tem que valer muito a pena. Tem que ser um investimento muito acertado ainda que você não saiba cada detalhe da sua trajetória.
Eu acredito que a viagem em si, por mais curta que seja, já abre sua cabeça um bocado. Melhor ainda se você puder levar de volta ideais e visões que possam tornar o nosso país melhor e trouxer para cá uma ideia de Brasil diferente das conversas estereotipadas de país do samba, praia e futebol. Um Brasil rico culturalmente, com profissionais de alta qualificação e muito a acrescentar.
Temos muito mais a oferecer do que farmacêuticos, médicos e engenheiros que limpam privadas ou entregam pão. Não que estas não sejam profissões dignas. Mas dignidade também reside em exercer a profissão para a qual você se preparou e não deixe que ninguém, em nenhuma parte do mundo, diga que você não merece fazê-lo.